Antes que alguém pense como minha querida irmã que acha que estou fazendo um passeio turístico a resorts com empregados à minha disposição, acho bom dizer que o meu objetivo nesses lugares não era ficar com a cara de bobo, balançando na rede e tirando fotos. É claro que eu fiz isso também. Mas o meu dia-a-dia era ser útil no que fosse preciso. Eu cheguei a esses lugares sem saber fazer quase nada. Sabia varrer, lavar pratos e carregar coisas... mas plantar, limpar horta, mexer com abelhas, isso e muitas outras coisas eu aprendi na prática. E como todo homem da roça e do mato, eu precisei me habituar a dormir cedo e acordar cedo. Às vezes, levantar antes do sol surgir, no frio do sul de Minas.
Foi um choque sair de uma cidade grande e chegar a um lugar tão calmo e silencioso. Sabe aquele barulinho que fica na cabeça depois de um show quando a gente vai dormir (tiiiiiiiiiiiiii...)? Eu sentia isso. E até posso escrever uma teoria de que a gente não sente isso por causa do barulho alto, e sim por causa do silêncio, inversamente maior. No quarto que eu fiquei (da Ju), antes de dormir eu lia ou escrevia, me torturando com aquele zunido até acostumar.
O dia-a-dia no Matutu era tranqüilo. Isso eu não posso negar. Acordávamos cedo, mas nossas tarefas eram bem simples e leves. Foi como iniciar a viagem no "nível básico" e isso era preciso já que tudo pra mim era novo. Como era época de pinhão (a semente da araucária), passamos várias horas colhendo quilos e quilos que estavam derramados pelo terreno do sítio. Também era época de caqui e por mais que enchêssemos as sacolas de caquis, a árvore parecia lotada. Aprendi a limpar a horta com a Inês e a transplantar amendoim rasteiro com o Harvey. (Parece piada, mas eu não sabia tirar os amendoins sem fazer buracos no chão.) Colhemos abacates e goiabas e, sempre, caquis e mais caquis.
À noite, eu descansava lendo um livro ou escrevendo, até um dia que descobri que eu e Harvey compartilhávamos uma mesma paixão: o Cinema! Eles não tinham televisão, as crianças cresceram longe das más influências da mídia. Mas naquela casa tinha um quartinho aconchegante com fitas e dvds de vários filmes, entre eles, os preferidos do Harvey. Ele aderiu a idéia de assistir um filme toda noite. E não era só assistir o filme, podíamos fazer uma pizza e beber cerveja. E no outro dia pela manhã, sempre tinha espaço, durante a colheita de caquis, para uma crítica, comentário ou piada do filme da noite anterior. Totalmente excelente!
Comecei esse texto tentando falar sobre a minha "utilidade" nessa viagem, mas fica difícil explicar o meu suor do trabalho quando digo que estava num lugar rodeado por uma natureza exuberante, por pessoas alegres e carinhosas, tendo uma alimentação saudável, vendo filmes e comendo pizza. Começo a pensar que as únicas diferenças desse lugar para um resort é que não tinha ninguém pra arrumar minha cama e não precisava pagar estadia. O resto era parecido.
Filmes: Vida bandida, Papillon, Mediterrâneo, Maré vermelha, Regras da vida e Perfume de mulher.
Foto: Lucas depois de limpar a horta com a Inês.
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